3.1.1 Análise da pobreza
A finalidade da análise da pobreza é estabelecer a base para a formulação do documento PRSP e para a implementação dos programas. E essa análise, quando bem-feita, fornece informações decisivas sobre as causas da pobreza e sobre o que é necessário fazer para lidar com as falhas identificadas. Uma vez concluída a análise da pobreza, as OPDs devem fazer com que os resultados produzam efeito na formulação do PRSP e que, num estágio posterior, se estabeleça um vínculo com os programas identificados no PRSP.
A análise da pobreza é essencial para estabelecer prioridades e influir nas políticas. No entanto, até agora as análises da pobreza muitas vezes não levam em consideração as pessoas com deficiências e outros grupos marginalizados. Uma razão é a falta de conhecimentos e de dados confiáveis. Como o PRSP também oferece a oportunidade de requisitar dados, entre as possíveis contribuições de uma OPD, neste estágio, estão: tratar de melhorar a qualidade e o tipo das informações existentes, realizando levantamentos e estudos de pequena escala com dados quantitativos e qualitativos sobre problemas específicos. A coleta de dados qualitativos, além de necessária para a compreensão das causas subjacentes aos números, possibilita uma análise mais abrangente. Enquanto uma análise bem elaborada da pobreza fornece a base para tomadas de decisões mais objetivas, os dados inconfiáveis têm um elevado risco de distorção da realidade. Por isso, as ONGs, OPDs e todas as partes interessadas devem conferir e questionar todos os dados levantados. É a abrangência da definição de deficiência que servirá de base para avaliar a confiabilidade e a comparabilidade dos dados. Todas as partes interessadas devem, portanto, refletir sobre uma definição conjunta e sobre métodos confiáveis de coletar dados (vide capítulo 8, Defesa de Interesses e Lobby).
Exemplo: Honduras
No documento do PRSP hondurenho ficou reconhecida a falta de dados confiáveis sobre pessoas com deficiência e foi redigida a sugestão de integrar na pesquisa nacional por amostra de domicílio, realizada pelo Instituto Nacional de Estatísticas, “um módulo destinado a identificar, entre outras coisas, a distribuição geográfica e as características socio-econômicas e demográficas da população com deficiências”. (Gov. of Honduras, 2001, p. 89). Com base nesta menção no PRSP, a Handicap International pôde cobrar do Instituto Nacional de Estatísticas a inclusão de uma seção sobre deficiência no levantamento e a elaboração de uma metodologia para a coleta de dados em colaboração com as OPDs hondurenhas.
Análise Participativa da Pobreza (APP)
Um método especial, denominado Análise Participativa da Pobreza (APP), foi desenvolvido nos anos 90 e usado inicialmente sobretudo em áreas rurais. A definição de pobreza na APP inclui uma dimensão monetária (renda e consumo), mas também leva em consideração a vulnerabilidade, o isolamento físico e social, a insegurança, a falta de auto-respeito, a falta de acesso a informações e a falta de poder. A vantagem de uma APP é que leva menos tempo para ser concluída e custa menos do que uma pesquisa convencional por amostra de domicílio. A metodologia usada envolve contatos diretos com pessoas que vivem na pobreza, por serem consideradas quem melhor conhece o que significa a pobreza na prática. Os entrevistadores discutem com elas sobre a sua situação, usando métodos que são ajustados de acordo com o objetivo específico da pesquisa. Diferentemente de uma análise tradicional, a APP não usa métodos padronizados, tais como questionários pré-formulados; em vez disso, a metodologia é feita sob medida para a situação pesquisada. Um objetivo adicional é capacitar as pessoas envolvidas a exercer maior controle sobre todo o processo de pesquisa.
Exemplo: APP com foco em deficiência na Tanzânia
Na Tanzânia, as OPDs foram envolvidas na Análise Participativa da Pobreza. Duas delas, o Centro de Informações sobre Deficiência (ICD) e Shivyawata (uma organização que abriga seis OPDs) receberam verbas para realizar uma análise da pobreza. O ICD contatou e entrevistou 80 pessoas com deficiências em diferentes situações socio-econômicas em quatro regiões da Tanzânia, enquanto a Shivyawat realizou uma análise mais ampla sobre a situação da pobreza em 21 regiões. Os resultados desse levantamento provaram que as pessoas com deficiências estão entre os mais pobres entre os pobres, e que as causas da pobreza não são unidimensionais, mas multidimensionais.
Mais informações
Norton, Andy (2001): A Rough Guide to PPAs – Participatory Poverty Assessment: An Introduction to Theory and Practice.
Robb, Caroline M. (2000): How the Poor Can Have a Voice in Government Policy.(IMF publications)
The World Bank Poverty Net with Voices of the Poor
Government of Honduras (2002): Poverty Reduction Strategy Paper 2001-2015. Tegucigalpa.
Info Sheet: PPA. Mas sobre a análise participativa da pobreza. Este documento em PDF apresenta informações adicionais sobre métodos participativos de análise.




