6.5.4 Educação
A situação global
Menos de dois por cento das crianças com deficiência nos países em desenvolvimento têm acesso à educação. (Dados da UNESCO, citados em http://www.un.org/disabilities/convention/facts.shtml). A maioria das crianças com deficiência que vão à escola ficam separadas dos colegas, em ambientes de aprendizagem segregados, tais como escolas especiais e centros diurnos. Essas estruturas, administradas preominantemente por organizações religiosas e ONGs locais, Muitas vezes não dispõem dos recursos materiais e humanos para implantar uma educação relevante e de qualidade. Consequentemente, o índice de alfabetização entre adultos com deficiência permanece baixo: “O índice de alfabetização de adultos com deficiências não passa de 3 por cento e de 1 por cento no caso das mulheres com deficiências, de acordo com um estudo da UNDP de 1998.” (dados de http://www.un.org/disabilities/convention/facts.shtml) A “falta de educação continua sendo o principal fator de risco de pobreza e exclusão de todas as crianças, tanto as portadoras de deficiências como as demais”. (Takamine, 2004, p. 20).
Exemplo: Togo
Um recente estudo realizado no Togo (Missão Exploratória para a Handicap International, por Dominique Blu, 2006), mostrou que das 154.000 a 220.000 crianças deficientes em idade escolar (a OMS estima que entre 7% e 10% da população são pessoas deficientes), apenas 3.000 têm acesso à educação. Enquanto o governo togolês mostra compromisso, a nível de política, com os direitos das crianças a ter acesso igual à educação (o Togo é signatário da Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança de 1989, mas não é ainda da Convenção da ONU sobre Direitos das Pessoas com Deficiência de 2006), as crianças com deficiência permanecem invisíveis. As ações atuais se baseiam em grupos não governamentais da sociedade civil; um dos grupos mais ativos neste campo é a Federação Togolesa das Associações de Pessoas Portadoras de Deficiência (FETAPH).
Barreiras à educação
As barreiras atitudinais continuam sendo os principais obstáculos à igualdade de acesso à educação fundamental para todas as crianças. A falta de informações factuais e de apoio às crianças deficientes e suas famílias, às comunidades, aos educadores e aos tomadores das decisões, juntamente com crenças profundamente arraigadas culturalmente sobre deficiência, contribui para a discriminação. O fato de serem raras as oportunidades de emprego para jovens deficientes e de haver poucos exemplos de pessoas deficientes ocupando posições chave piora ainda mais a falsa crença de que não investir na educação de crianças deficientes não traz benefícios.
Outras barreiras significativas são:
- Políticas educacionais nacionais inadequadas e indiferentes em relação às crianças com deficiências
- Metodologias de ensino estreitas nas escolas que não levam em conta a diversidade de necessidades educacionais e de tipos de aprendizagem dos estudantes (conhecimento limitado e uso limitado de técnicas de comunicação alternativas)
- Acessibilidade física (instalações sanitárias mal construídas, piso irregular nas áreas de recreação, degraus abruptos para as salas de aula, má iluminação nas salas de aula, quandros negros muito altos, em plataformas elevadas, com mobiliário adaptado)
- Falta de associação entre o lar e a escola (falta de capacidade das famílias de fazer lobby pelo direito dos seus filhos à educação)
- Grau de pobreza entre as famílias com filhos deficientes
O caminho pela frente
A inclusão de crianças deficientes na educação não é um luxo, mas um direito humano básico e fundamental que deve ser manifesto com clareza em todos os PRSPs. O sistema de educação inclusiva deve ser encarado de uma perspectiva baseada nos direitos. Esta abordagem foca a discriminação enfrentada por grupos marginalizados e vulneráveis, incluindo as pessoas com deficiência; uma discriminação que está presente nos sistemas educacionais de todo o mundo. Nessa perspectiva, a inclusão apodera os detentores de direitos (concretamente, as crianças excluídas da educação, e as suas famílias) e insiste na participação dessas pessoas no planejamento, implantação e monitoramento das políticas e práticas educacionais.
Um sistema verdadeiramente includente incluiria educação igual e suprimento de apoio para todas as crianças e todas as escolas e todos os ambientes de aprendizagem. Para que isto aconteça, é necessário reestruturar e reorganizar seriamente os sistemas de educação. É preciso fazer uma reatribuição de espaços físicos e de recursos humanos, financeiros e materiais.
Fala-se muito em Educação Inclusiva como processo porque há muitos passos a serem dados neste caminho. A educação especial tem que fazer parte da estratégia educacional geral (Declaração de Salamanca, 1994). As escolas especiais existentes muitas vezes detêm um valioso acervo de conhecimentos, recursos humanos e materiais que podem alimentar todo o processo de mudança.
Exemplos de PRSPs
Um dos objetivos do PRSP da Tanzânia é “garantir o acesso equitativo à educação primária e secundária de qualidade”.
O PRSP da Tanzânia tem várias passagens sobre crianças com deficiência:
- a proporção de crianças com deficiência matriculadas, freqüentando ou tendo concluído a escola deve ser aumentada de 0,1% em 2000 para 20% em 2010
- deverão ser empreendidas reformas dos currículos para a formação dos professores de educação primária e secundária, do treinamento de professores, dos materias didáticos, da avaliação, exames e do sistema de supervisão escolar, a fim de promover o aprendizado crítico, criativo e baseado em habilidades, e incorporar temas de gênero, HIV/AIDS, deficiência e meio ambiente. (República Unida da Tanzânia, Gabinete do Vice-Presidente, 2005)
PRSP Camboja, 2005, p. 59:
“A educação é universalmente aceita como um direito humano básico. É também um imiportante fator que contribui para a redução da pobreza. O objetivo de longo prazo é assegurar que todas as crianças, adolescentes e jovens cambojanos tenham oportunidades iguais à educação de qualidade, não obstante o status social, a geografia, e etnicidade, a religião, a língua, o gênero ou deficiências.”
PRSP Gana, 2005, p. 43: “assegurar que os prédios e outros espaços físicos nas escolas sejam acessíveis às pessoas com deficiência”.PRSP Moçambique, 2006, p. 104: “Treinamento de professoresObjetivo principal: assegurar que todos os professores sejam treinados para todos os subsistemas educacionais, com vistas a promover a educação para todas as crianças e adolescentes, inclusive as meninas e os portadores de deficiências.”
Mais informações
EENET: Schools for all (pôster)
Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais, Acesso e Qualidade (1994): A Declaração de Salamanca e Quadro de Ação na Educação para Necessidades Especiais, Salamanca, Espanha, 7-10 juho 1994.
Enabling Education Network: http://eenet.org.uk
Takamine, Yutaka (2004): Working Paper Series on Disability Issues in East Asia: Review and Ways Forward. Paper No. 2004-1, Maio.
Jonsson, Tyre & Ronald Wiman (2001): Education, Poverty and Disability in Developing Countries. A Technical Note Prepared for the Sourcebook. Patrocinado pelo Thematic Group on Disability Issues e financiado pelo Finnish Consultant Trust, Junho.
Stubbs, Sue (2002): Where there are few resources. Oslo. The Atlas Alliance.
Unesco (2001): Understanding and responding to children’s needs in inclusive classrooms: a guide for teachers. Paris.
Este documento propõe aos professores métodos práticos de lidar com crianças que têm dificuldades especiais de aprendizagem.
Unesco (2004): Embracing diversity: toolkit for creative inclusive, learning-friendly environments. Bangkok.
Este kit de ferramentas oferece dicas práticas sobre como tornar as escolas e salas de aula mais inclusivas e amigáveis para a aprendizagem. Orienta os professores que trabalham em salas de aula a apoiar a criação e a gestão de um ambiente que promova a aprendizagem inclusiva e amigável, através da plena participação de educadores, estudantes, pais e membros da comunidade.
Swedish Co-operative Body of Organisations of Disabled People (2001): Agenda 22: disability policy planning instructions for local authorities. Stockholm : Swedish Co-operative Body of Organisations of Disabled People (2001):
As organizações suecas de pessoas com deficiências criaram um método, conhecido pelo nome de Agenda 22, para desenvolver políticas de deficiência, baseado nas “Regras Padrão de Igualdade de Oportunidades para pessoas com deficiêncis”.
Unesco / Sandkull, Olof (2005): Strengthening inclusive education by applying a rights-based approach to education programming. Bangkok.
Este documento tem por objetivo esclarecer os conceitos que embasam a abordagem baseada nos direitos e o seu papel no fortalecimento das atividades da educação inclusiva. Discute brevemente as ferramentas necessárias para avançar e enfatiza a importância dos direitos humanos na programação da cooperação para o desenvolvimento, e os aspectos práticos da implementação desses programas.
Unesco (2000): Open file on inclusive education: support materials for managers and administrators. Paris.
Este documento tem por objetivo apoiar todas as pessoas preocupadas em promover a educação inclusiva nos seus países. Em especial, o documento oferece aos administradores e tomadores de decisões em diferentes países meios para aproveitar a experiência internacional na condução dos sistemas educacionais dos seus países rumo à inclusão.
Unesco (2006): Guidelines for inclusion: ensuring access to education for all. Paris.
Peters, Susan (2003): Education for all: including children with disabilities. Washington. Banco Mundial
O documento define educação inclusiva: alcançar a educação para todos, incluindo as crianças deficientes e as com necessidades educacionais especiais.
World Vision UK (2007): Education’s missing millions. Including disabled children in education through EFA FTI processes and national sector plans.
Este documento avalia a resposta da iniciativa “via rápida na educação para todos” no tocante à inclusão da deficiência. Apresenta dados concretos obtidos em estudos de caso em três países e recomenda que os sistemas educacionais sejam revistos para se tornarem compatíveis com a diversidade e levarem em conta os direitos e interesses das crianças portadoras de deficiências.




